Por Que a Inovação Não Cura a Toxicidade?
A Lei de La Boétie na Era do Slack
Que vivemos no ápice da inovação, creio não ser novidade.
Temos Inteligência Artificial, home office flexível, comunicação instantânea e uma profusão de softwares desenhados para nos dar mais tempo, como compartilho o Milton em seu artigo.
No entanto, o Burnout se tornou uma epidemia e as relações de trabalho, mesmo mediadas por telas, continuam estranhamente tóxicas.
CEOs da própria vida e de seus negócios, o problema não está na máquina. Está na escolha de quem a opera.
Para entender este paradoxo, precisamos ir além do último upgrade e buscar a sabedoria do século XVI. Aliás, indico esta leitura, afinal estamos em ano de Copa do Mundo e Eleições estaduais e federais.
Em seu ensaio “Discurso da Servidão Voluntária”, o filósofo e jurista Étienne de La Boétie (1530-1563) fez uma pergunta radical:
Por que as massas aceitam ser dominadas por um único tirano, quando bastaria simplesmente não servi-lo para se libertarem?
La Boétie nos ensina que o tirano não tem poder algum, se o povo não consentir, não se permitir ser governado. Em outras palavras, a opressão existe, porque é voluntariamente sustentada.
Esta é a chave para decodificar por que, apesar de toda a nossa tecnologia de ponta, continuamos a construir relações corporativas que nos adoecem.
E como cantou Tom Jobim: “Tristeza não tem fim, felicidade sim.” O ser humano historicamente é treinado para sempre fortalecer os padrões de dor, de tristeza, de perdas, de zona de conforto [onde liderar cansa, então é mais fácil ser liderado].

Outra lembrança é a frase célebre de Macunaíma, livro de Mário de Andrade: “Ai que preguiça!” E, sendo um pouco ácida, se fosse atualizada estaria na boca de uma maioria esmagadora assim: “Ai que preguiça! E pra que trabalhar, se eu tenho o cartão Vale… | Bolsa… pra me sustentar?! E, se me der pão com mortadela, pode contar com meu voto.”
Da Servidão Industrial à Servidão Digital
O ambiente corporativo herdou sua estrutura da Revolução Industrial. Ali, a servidão não era voluntária, mas imposta: o controle era físico, o trabalho era rígido e a relação empregador/empregado era puramente hierárquica. O tempo era medido pelo relógio-ponto, e o domínio era exercido pelo poder de demissão em massa. Somente naquela época!?
A tecnologia prometeu quebrar essas correntes. O e-mail nos daria velocidade, o home office nos daria autonomia e o smartphone nos daria liberdade.
O que La Boétie nos ajuda a enxergar é que a tecnologia apenas mudou o palco, não o comportamento de servidão. A lei da Servidão Voluntária persiste de forma ainda mais insidiosa no nosso cotidiano:
- Trabalho 14h por dia (sem remuneração extra), não porque o chefe me obrigou, mas porque eu temo o julgamento de não estar sempre disponível.
- Aceito o assédio moral ou a sobrecarga sem reagir, porque eu escolho a falsa segurança do emprego em detrimento da minha saúde mental, entendida como mimimi.
- Respondo e-mails à meia-noite, não por necessidade do cliente, mas por hábito de autossabotagem imposto pela cultura.

O chefe tirano de hoje não nos coloca no tronco, ou usa o chicote; ele usa a expectativa de disponibilidade e a nossa própria falta de limites. E, por medo, nós consentimos.
O Paradoxo do Smartphone: Escravos da Liberdade
A maior ironia da nossa era é que usamos ferramentas de liberdade (como o laptop e a IA) para aprofundar nossa servidão.
A Inteligência Artificial, por exemplo, deveria liberar o tempo do colaborador, para tarefas mais humanas e criativas. No entanto, muitas empresas apenas usam o tempo extra para empurrar mais volume de tarefas, explorando o novo limite imposto pela máquina, e não pela ética.
O problema é a fragilidade da nossa Autoliderança.
Em vez de usarmos a tecnologia para negociar mais tempo livre, nós a usamos para provar nossa lealdade e indispensabilidade ao tirano—que pode ser o nosso chefe, a nossa empresa, ou a nossa própria crença limitante de que o descanso é um fracasso.
A toxicidade corporativa, portanto, não é uma falha de software; é uma falha de caráter. É a reprodução de um modelo que nós escolhemos não desafiar.

A Conclusão Filosófica: O Remédio é o Não Consentimento
A lei não cura a alma, nem as mentes.
A NR-1, ao exigir a gestão dos riscos psicossociais, estabelece o piso ético. Ela nos obriga a olhar para o problema. Mas a lei não pode nos obrigar a dizer “não”.
A verdadeira evolução, a cura para a toxicidade pandêmica das nossas relações, está em resgatar a Inteligência Humana e o poder de escolha. O poder de mudar a relação está na mão de quem escolhe não mais se submeter à cultura doente.
La Boétie nos deu a fórmula há séculos: não consinta, não se permita.
- Não se permita com a cultura de que “estar ocupado é ser importante”.
- Não permita negligenciar a sua saúde mental para bater uma meta.
- Não permita usar a tecnologia como grilhão.
O primeiro passo para o líder curar a cultura é curar sua própria Servidão Voluntária.
Ao reassumir o controle da sua vida e impor limites, você ensina à sua equipe a única forma de governar com sustentabilidade: pela liberdade e pelo respeito mútuo.
Use a tecnologia para escalar o seu negócio, e use a Filosofia para escalar a sua mente.
Sua Ascensão Compartilhada começa quando você se recusa a ser um servo de A a Z.