Existe uma romantização do empreendedorismo que, muitas vezes, atrapalha mais do que ajuda. Fala-se muito sobre coragem, iniciativa e liberdade, mas muito pouco sobre o peso das decisões, a falta de preparo, a pressão constante e a solidão de quem precisa fazer o negócio sobreviver enquanto ainda está construindo suas bases.
É justamente nesse ponto que muitos negócios se perdem. Por falta de estrutura, direção, repertório e apoio, não por falta de empenho.

O Salmo 91:7 declara: “Mil cairão ao teu lado.”
Segundo o IBGE, 79,6% das empresas empregadoras nascidas em 2021 sobreviveram ao primeiro ano, mas, quando se observa a coorte de empresas nascidas em 2017, apenas 37,3% permaneciam vivas após cinco anos. Em outras palavras, mais de seis em cada dez não chegaram ao quinto ano.
O Sebrae aponta entre os fatores que mais contribuíram para o fechamento dos negócios o pouco preparo pessoal, o planejamento deficiente e a gestão deficiente. Num levantamento, 17% disseram não ter feito nenhum planejamento e 59% afirmaram ter planejado o negócio por no máximo seis meses. O mesmo estudo destaca que a capacitação aumenta as chances de permanência no mercado.
Podemos concluir que o desafio maior não está em abrir, mas em sustentar o projeto.
Você é bom no que faz, mas é também em administrar?
Este é um dos pontos mais importantes, e também um dos mais negligenciados.
Muita gente abre empresa porque sabe executar muito bem uma atividade. Sabe vender um produto, prestar um serviço, produzir com qualidade, atender melhor do que a concorrência. Isso tem valor. Mas isso, por si só, não forma uma empresa forte.
Uma empresa não se sustenta apenas com competência técnica. Ela precisa de estrutura, organização e clareza, junto de visão estratégica, disciplina financeira, capacidade comercial e de tomada de decisão.
E esse talvez seja um dos grandes dramas do início da jornada empreendedora. A pessoa conhece o ofício, mas não domina a gestão. Entende a entrega, mas não necessariamente entende fluxo de caixa, posicionamento, estrutura comercial, liderança, processos e estratégia.
No começo, quase sempre quem empreende precisa olhar a empresa de A a Z. Precisa enxergar os múltiplos braços do negócio ao mesmo tempo, mesmo sem ter acumulado todos os conhecimentos necessários para isso. E esse descompasso cobra um preço alto.
Muitos negócios morrem não porque o produto era ruim, mas porque faltou gestão suficiente para sustentar o crescimento, corrigir rota, proteger caixa, estruturar processo e amadurecer a operação a tempo.

O peso do mundo nas costas
Para somar e agravar ao ponto anterior, uma das maiores dores reveladas pelos empresários é o da solidão, que pode influenciar profundamente a trajetória do negócio.
Empresas que estão nos estágios iniciais geralmente contam com uma estrutura enxuta, equipe reduzida e recursos limitados. Nesse contexto, frequentemente é difícil contar com uma divisão clara de funções. A mesma pessoa que vende também atende, compra, organiza, cobra, resolve problema operacional, acompanha o caixa, pensa divulgação e ainda tenta decidir os próximos passos do negócio.
Quando o empresário já está atrelado à operação da empresa, e possui poucos conhecimentos administrativos, fica cada vez mais difícil tocar a empresa, e muitos se sentem como equilibristas do Cirque du Soleil. Também fica mais difícil tomar decisões e saber qual caminho seguir.
É justamente aí que mora uma das maiores dificuldades do início: quase tudo passa pela liderança. E quando quase tudo depende de uma única pessoa, o desgaste deixa de ser só operacional e entra também o mental, emocional e consequentemente estratégico.
Falta tempo para pensar, falta espaço para amadurecer decisões e, em muitos casos, falta até ambiente para expor dúvidas sem receio de parecer frágil ou de não ser compreendido. Do lado de fora, o negócio pode parecer fluindo bem, mas por dentro, pode estar carregando um nível enorme de pressão.
Essa sobrecarga prejudica não apenas a rotina, mas também a capacidade de enxergar com clareza. E esse é um ponto fundamental para o sucesso de qualquer negócio. Uma empresa em fase inicial não precisa apenas de dedicação; ela precisa de lucidez e direcionamento certo. Precisa de uma liderança que consiga sair do turbilhão do dia a dia, ainda que por momentos, para refletir, priorizar e ajustar a rota.
Por isso, quando falamos em fortalecer empresas jovens, não estamos falando apenas de planilhas, técnicas e ferramentas. Estamos falando também de ambiente, de troca, de acesso, de convivência com outras lideranças, e de ter com quem conversar antes que o problema se torne grande demais.

O que ajuda uma empresa a atravessar essa fase e se tornar duradoura?
O primeiro ponto é o desenvolvimento de visão empresarial. Não basta tocar o negócio, é preciso enxergá-lo como sistema. Quem cresce precisa sair de uma lógica puramente operacional e desenvolver visão de estrutura, sensibilidade para prioridades, capacidade de decisão e leitura de mercado.
O segundo ponto é capacitação. Não apenas de cursos formais, mas de formação prática: aprender com quem já viveu problemas parecidos, acessar repertório, ouvir especialistas e trocar experiências. O Sebrae destaca justamente a capacitação como um fator importante para elevar a permanência das empresas no mercado.
O terceiro ponto é conexão qualificada. Apesar da banalização do networking, a criação de relacionamentos é fundamental para a criação de oportunidades de negócios,
mas também para a troca de experiências e informações, sendo ambientes de criação de parcerias estratégicas. É exatamente aí que iniciativas como núcleos, fóruns, associações e espaços de desenvolvimento fazem diferença.
No fim, empresas fortes e duradouras não nascem prontas. Elas são construídas com direção,humildade para aprender, com estrutura para amadurecer, e com apoio para a liderança não carregar tudo sozinha.
No começo, sobreviver já é uma vitória. Mas sobreviver com base, crescer com consciência e se tornar uma empresa sólida é o que se transforma em legado duradouro.